Sobre o projeto "Esplanada Liberdade"
À primeira vista, a ideia de costurar uma cicatriz urbana como a Radial Leste parece positiva. No entanto, quando olhamos os termos dessa Parceria Público-Privada (PPP), o que vemos é a reiteração de um modelo que privilegia a exploração econômica em detrimento do uso social e público. O projeto, que contará com 150 milhões de reais de investimento público, será gerido por um consórcio privado de empreiteiras por 30 anos. A remuneração desse ente privado virá da exploração comercial, incluindo a previsão de mais um shopping center com seis andares em plena laje.
Mais um shopping?
A pergunta que fica é: para que precisamos de mais um shopping center em São Paulo? Qual o sentido de ampliar o espaço público se ele nasce condicionado à rentabilidade? O que temos visto em outros pontos da cidade, como no Parque Ibirapuera e no Parque Villa-Lobos, é uma captura sistemática do espaço comum. Áreas que deveriam ser livres estão sendo ocupadas por eventos privados, cercadinhos e naming rights. O caso do Vale do Anhangabaú é emblemático: um escândalo onde o espaço fica frequentemente vedado ao uso pela população para explorar eventos comerciais.
O apagamento da população negra e sua história
No caso específico da Liberdade, há um agravante: o apagamento da memória da população negra no bairro. O projeto tem sido fortemente contestado por movimentos sociais porque reforça uma “japonesização” do bairro, ignorando que a história e a cultura negra são fundamentais para aquele território, o próprio nome do bairro vem dessa história. Ao deixar a gestão do espaço — e até de um futuro memorial previsto no projeto — nas mãos de uma empresa privada, permitimos que esta seja uma decisão dependente de cálculos de rentabilidade e não valores coletivos, definindo assim qual história merece ser contada.
Infelizmente, a sanha privatista não para por aí. Atualmente, a prefeitura propõe também a privatização da Praça Roosevelt e sua conexão com o Parque Augusta. Estamos transformando a cidade em um conjunto de fragmentos geridos pela lógica do mercado, onde o cidadão só é bem-vindo se for consumidor.
O que São Paulo realmente precisa são de espaços públicos, comuns e livres de exploração econômica. A cidade deve ser um lugar de encontro e de liberdade, e não uma sucessão de esplanadas desenhadas para sustentar novos centros de compra.
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