Túnel da Sena Madureira uma obra do século passado para os problemas do século XXI -Victor Zacharias- Jornalista (Notícias da Aclimação e Cambucci)

 São Paulo sofre pelo excesso de automóveis, mas mesmo assim, a Prefeitura insiste em apostar em uma solução típica do século passado: a construção de mais vias para carros.

Aumento do congestionamento

O chamado “tráfego induzido”, fenômeno amplamente estudado em cidades do mundo inteiro. Quando amplia a capacidade viária para automóveis, o resultado inicial pode ser a redução dos  congestionamentos. Porém, em pouco tempo, o espaço adicional atrai mais carros, anulando os ganhos e muitas vezes agravando a situação. O próprio processo participativo da Prefeitura recebeu  manifestações alertando que o túnel poderá induzir mais viagens motorizadas, aumentar a poluição e piorar o trânsito no médio prazo.

Desaprovação da população

O Túnel da Sena Madureira tem forte oposição de moradores, urbanistas, entidades da sociedade civil e especialistas em mobilidade, mas o projeto segue avançando. Diversas audiências públicas foram realizadas, a sensação predominante entre os participantes é de que a decisão já estava tomada antes mesmo do início do diálogo. Não por acaso, esses encontros ganharam o apelido de “surdências”, uma referência à percepção de que a Prefeitura escuta, mas não ouve.

Ministério Público

A resistência ao túnel não se baseia apenas em opiniões. O projeto é alvo de questionamentos no Ministério Público, que instaurou inquérito para investigar fragilidades nos estudos. Os vereadores Nabil Bonduki, Renata Falzoni, Marina Bragante e Toninho Vespoli protocolaram representação junto ao MP pedindo anulação do Estudo e Viabilidade Ambiental (EVA) de 2024 e a suspensão da licitação da obra pelas fragilidades técnicas que embasam a obra. As alegações motivaram mais um inquérito civil. O empreendimento já enfrentou suspensões, rescisão contratual, reavaliações e contestações relacionadas a aspectos ambientais, licitatórios e sociais.

Qual solução para mobilidade?

Enquanto metrópoles modernas investem em transporte coletivo de alta capacidade, corredores de ônibus, ciclovias e qualificação dos espaços para pedestres, São Paulo corre o risco de gastar centenas de milhões de reais em uma obra que esconde o congestionamento por alguns metros debaixo da terra, mas não resolve suas causas.

Plano diretor

O Plano Diretor de São Paulo recomenda investir em transporte coletivo, caminhabildade,  ciclomobilidade e adensamento próximo aos eixos de transporte. Não é prioridade estratégica da cidade ampliar infraestrutura para automóveis. 

A prefeitura acerta 

Quando investe na ampliação da rede de ônibus elétricos contribuindo para a redução da poluição do ar e do barulho ou no Domingão Tarifa Zero, gratuidade de ônibus aos domingos, ou investe em corredores de ônibus ou requalificação de terminais, mas erra quando insiste na construção de um túnel de R$622 milhões recusado pela população e especialistas.

A mobilidade do futuro não será construída com mais concreto para carros. E é exatamente isso que os moradores da Vila Mariana e de toda a região têm pedido. 

Victor Zacharias- Jornalista

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