As histórias individuais dos moradores da Sousa Ramos formam um quadro de muita luta e trabalho
As histórias individuais dos moradores da Sousa Ramos formam um quadro de muita luta e trabalho. Pessoas em sua maioria migrantes que chegaram a São Paulo em situações extremamente desfavoráveis e que com muito trabalho e persistência construíram aqui as suas vidas. Mulheres que desde a infância trabalharam em “casas de família” quase sem salário e com jornadas de trabalho literalmente intermináveis, não muito distante do que chamaríamos de “condições análogas à escravidão”, vivendo em pequenos cubículos, quartinhos sem janela próximos ao tanque e à cozinha adicionados por arquitetos renomados aos projetos de apartamentos modernistas da Vila Olímpia, da Pompéia, da Vila Mariana.
E que dessa situação de extrema desvantagem, de exploração extrema, souberam construir saídas e progredir, se tornaram independentes, proprietárias de suas vidas e de suas casas, casas que agora querem tirar delas de maneira ilegítima, imoral e criminosa.
Essas pessoas vieram de contextos em que o acesso à educação formal era impossível, chegaram a São Paulo, muitas vezes, sem saber ler e escrever e, em um espaço de poucas décadas, não só conseguiram conquistar diplomas para si como criaram filhos e netos que são advogados, administradores, professores, músicos e artistas.
A obra que a Prefeitura impõe, uma obra viária atrasada, anacrônica, que já nasce fracassada em sua intenção principal (“destravar o trânsito” da região), é na verdade uma continuação da obra centenária de expulsão, remoção e periferização da massa trabalhadora da cidade. Há mais de cem anos que as elites de São Paulo, sob pretexto da “modernização”, derrubam as moradias trabalhadoras das áreas nobres, expulsando os seus habitantes para as bordas da cidade, condenando-os ao eterno suplício do transporte rodoviário que rouba horas e horas de suas vidas, horas que eles poderiam usar para o lazer e a cultura, para o convívio com a família e para o descanso.As elites dependem da força do trabalhador para gerar e manter suas riquezas e privilégios, mas os querem longe de suas vistas. E os querem dóceis, e para isso encarregam as polícias com o serviço de vigiar e controlar, modernos feitores e capitães do mato responsáveis por manter a senzala quieta.
As elites não toleram a presença de trabalhadores em bairros nobres – fora de seus horários de trabalho. Instalados em bairros servidos por boa infra-estrutura, poupados das longas horas de deslocamento, a salvo da brutalidade policial que se dá às escondidas nas bordas da cidade, os trabalhadores organizam-se, prosperam e florescem. A Sousa Ramos oferece um precedente perigoso de gente pobre que persiste e que transforma a situação da sua família em poucas décadas, criando novas gerações que agora se recusarão a servir às elites a troco de migalhas, e que competirão com os filhos das elites pelos direitos e privilégios que elas consideravam de uso exclusivo dos seus.
O que acontece hoje com a Sousa Ramos aconteceu com a Favela do Canindé, do Vergueiro, a Favela da Vila Prudente, a Favela do Moinho e tantas outras, exemplos de expulsão e segregação. Os habitantes da Sousa Ramos são remanescentes de um processo de segregação. São vistos como um “erro histórico”, uma anomalia na regra de periferização dos trabalhadores, e por isso se deseja tão ardentemente que eles sejam removidos.
Sobreviveram à migração, ao trabalho semi-escravo nas mansões e apartamentos de luxo, à violência policial, ao preconceito, e não só sobreviveram como prosperaram, mesmo contra todas essas dificuldades.
A Sousa Ramos vai vencer de novo e vai inscrever no tecido urbano dessa cidade injusta a marca da sua luta, A Sousa Ramos vai semear outras Sousas Ramos e vai ensinar como se escreve uma cidade mais justa. Texto escrito por @danielrinconcaires. Foto: José Cícero/ Agência Pública

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